Há quase três meses que não chovia. Parte da Primavera e Verão tem sido muito secos por estas paragens.
Hoje, última semana de Agosto, o dia amanheceu com neblina, cinzento e chuvoso. “Abençoada chuva” diz toda a gente!
Muito tímida, muito leve, muito pulverizada… Os vidros de uma das janelas do meu quarto estão cobertos de gotas minúsculas. Pequenas gotas, que ainda não atingiram o peso suficiente para deslizar ao longo do vidro escrevendo “fim do verão”!
As plantas estão bonitas! Adquiriram uma nova cor brilhante e as gotas deslizam nas pétalas das rosas para depois cair lentamente como quando tem orvalho.
Não resisti e mesmo com chuva fui tirar umas fotos, imortalizando na imagem aquilo que Vinicius de Moraes imortalizou em verso:
“ A felicidade é como gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor…
“A Felicidade” Vinicius de Moraes
Foi isto que senti!
O Sol tem uma beleza diferente! A sua capacidade regeneradora e a sua vitalidade fazem-nos sentir a sua imensa energia.
No campo a beleza torna-se simples e mágica para quem como nós vive na cidade.
As manhãs são leves, transparentes e o sol aparece com um colorido completamente diferente.
O verde dos campos e dos montes tem outra vida! Os silêncios da natureza penetram a nossa alma. Nostálgicos talvez, mas autênticos e simples. Como diz Goethe: “A beleza ideal está na simplicidade calma e serena”!
Aqui isto é real, mesmo nas gentes simples com quem me cruzo e falo quando ando a pé ou vou ao café/mercearia local! Deslumbra-me descobrir como se pode viver com ar feliz necessitando tão pouco. Talvez a quantidade tenha vindo diminuir a nossa capacidade de ver o infinito nas coisas mais simples.
Nos momentos em que vejo a natureza acordar, sinto-me privilegiada pelo que o meu coração consegue guardar profundamente dentro de si. Tal como W. Blake diz ,eu sinto que realmente que sou capaz de ver “O mundo num grão de areia e o céu numa flor silvestre…”
Que bom foi poder partilhar um dia, toda esta beleza simples e pura com um olhar idêntico ao meu!
Agora esse olhar já não está mais junto do meu, mas felizmente ainda consigo ver e sentir a natureza com a mesma intensidade, mas mais triste!
Hoje vou gostar de andar lá fora apanhando esta chuva miudinha a molhar-me o cabelo e o rosto, como fazia quando era criança! Também eu, sinto esta água quase mágica que lentamente vai caindo do céu. Esta chuva veio como uma dádiva para uma natureza quase agonizante depois de tanto tempo sem uma gota de água.
Vejo da janela alguma pétalas brancas de oleandro no chão!
As nossas hidrangeas estão muito queimadas! Quase não há flores com as cores que lhes conhecemos nos outros anos.
Lembras-te como sonhamos com a beleza que teriam este ano se continuassem a crescer como tinha acontecido até então?
Passeávamos de mãos dadas, imaginando que um dia isto se assemelharia à paisagem verdejante dos Açores. Este Verão estragou tudo. Tudo está amarelo ou quase castanho e algumas plantas mais frágeis não sobreviveram.
A chuva embora pouco intensa, parece ter reavivado quase tudo.
Hoje nasceu de novo um sol intenso e poderoso, mas não está tão quente!
Sinto-me só e triste! Aqui as recordações são muitas e isso provoca uma nostalgia que me perturba. Faço esforços, mas não consigo evitar um certo sofrimento pela incapacidade de recuperar as pessoas de quem gostei muito. Recordo ao seus sonhos, os movimentos, o riso, mas não consigo recuperar os cheiros, nem os pormenores de um olhar terno, de um toque nas mãos ou na face com um pequeno movimento que nos faz estremecer… Só há memórias esbatidas, não se sente, no sentido físico do termo. Como dói!
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
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